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Carta do Dr. Vandelli a Eduardo Mamede

Illustríssimo e Excelentíssimo
Senhor Eduardo Proença-Mamede

Sei que V. Senhoria me dedicou algum do seu tempo com uma exposição que aí organizaram à minha pessoa. Venho agradecer-lhe penhoradamente esse gesto do qual não sou digno.
Em vida fiz-me odiar por muitos. Todos os professores da universidade que reprovei em 1773 tinham família e, se bem que muitos tenham morrido até 1777, o certo é que o meu Protector morreu com o Rei D. José I e eu fiquei desvalido. Filhos, sobrinhos, irmãos dos que reprovei caíram sobre mim como cães e, se não morri em algumas ciladas, foi porque também tinha amigos nesse Portugal. Reconduzido D. Miguel da Anunciação à Cátedra Episcopal, este uniu‑se aos meus inimigos e a idade já não permitia que tivesse vontade própria.
A Rainha D. Maria estendeu sobre mim o seu manto protector, mas estava longe e para mais longe foi em

1807, quando chegaram os franceses. Desde 1789 que estava senil, mas conseguiu incutir no filho um certo respeito por mim e o Príncipe-Regente tinha-me em grande estima. Mas o problema maior veio com os falsos amigos que tinha. Félix do Avelar Brotero, que tão bem aderiu aos ideais da Revolução Francesa, cobiçou-me o lugar no Jardim Botânico e não descansou enquanto não ocupou o meu assento. Vários professores da universidade lembram-se do despeito que eu fizera a seus pais e tios e toca a incentivar os meus alunos a fazerem pateadas nas aulas, faltando-me ao respeito.
Minha mulher era da família Le Bon, prima do Marquês de Saint-Hilaire, titular francês que foi grande naturalista e com quem eu tinha trocado inúmeras cartas sobre todos os temas que se possam imaginar. Quando os franceses entraram no Reino, o Padre Thomé Sobral transformou o meu laboratório em fábrica de pólvora e eu travei-me de razões com ele. Aquilo era para o estudo, para a paz, não para a guerra e para a morte! Logo começou a correr que estava feito com os franceses. Quando estes entraram em Coimbra traziam ordens para levar certos animais empalhados que me trouxeram das colónias. Eu deixei-os ir para o meu primo e logo disseram que eu estava feito com eles, que roubavam tanto quanto as 14 carroças de alfaias das igrejas que saíram de Coimbra como saque.
Quando o Batalhão Académico foi correr os franceses do forte de Santa Catarina da Figueira da Foz do Mondego, já eu estava desgraçado. O Brotero acusavame de tudo e o Sobral, com a sua piedade cristã, mordia na populaça para que fizessem um auto de fé com a minha família. Partiram-me as vidraças da casa à pedrada, arrombaram as portas e armários e vasculharam os meus papéis. Entreguei-me para que minha mulher e filhas não sofressem maiores males. A soldadesca inglesa, aboletada à Guarda Inglesa, foi à minha fábrica e lançaram- -lhe o fogo. Perdi parte substancial do que tinha!
Levaram-me para Lisboa a ferros. Conheci os aljubes. Mandaram-me para os Açores, sem tempo para me julgarem verdadeiramente dos meus actos. Aí os juízes ficaram sem saber o que fazer comigo. Eu era um revolucionário cultural e mundial no meio de uma guerra de homens e povos mesquinhos e baixos. Permitiram-me fosse para Inglaterra, mas aquela maldita terra só me deu nevoeiros e frios, enfraqueceram meus ossos e senti-me a morrer. Condescenderam então em deixar-me ir para a casa de Lisboa e fui. Cheguei a uma terra porca e pus-me a escrever ao Rei-Regente. Mas a Rainha morria no Rio de Janeiro, em 1815, e eu achei melhor descansar também. Foi uma vida de trabalho e o descanso era merecido.
E morri, Senhor Mamede, descansando em paz nos etéreos lugares que os humanos não concebem. Por aqui tenho estado em Paz e Sossego, no meu transnaturalismo. Deixe-me em paz e fique bem. Passeie no Jardim Botânico pensando em mim.
Atenciosamente, de V. Senhoria muito grato.

 

Domingos Vandelli