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Carta ao Dr. Domingos Vandelli

Caro Sr. Vandelli:

Há muito que ando para escrever-lhe, mas não tem havido ocasião para tal. Quebrado de meus cuidados neste dia, tomo a liberdade de lhe escrever, nunca tendo sido apresentado a V. Ex.ia.
Já sei que nasceu em Pádua, em 1736, e seu Pai era o Dr. Vandelli médico. Também sei que estudou na universidade da sua terra natal. Findo o seu curso, o venerado Marquês de Angeja, reconstruindo a sua quinta no Lumiar, mandou-o vir para organizar o seu jardim e parque, pôr em ordem o seu gabinete de curiosidades. O Senhor veio e deu-se bem com os ares! No Portugal de então notaram que o senhor não era estúpido, apesar de ter um diploma universitário, nomearam-no para dar aulas no Real Colégio dos Nobres.
Por Lisboa se manteve até 1773, ano em que o 1º Ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, pediu-lhe que viesse a Coimbra reformar a universidade.

E V.Ex.ia veio com o seu colega Dalla Bella. Porém a turma estava bem organizada e recusou-lhe o diploma. Era Italiano e não valia. Desconheciam o Tratado de Bolonha e só havia tratados com Deus. Que o Senhor é queixinhas também o sei pois não tardou a escrever ao futuro Marquês de Pombal, que desconhecia por completo as regras do humor. Sebastião José veio a Coimbra, reuniu o pessoal na Sala dos Capelos e obrigou-os a fazer novo exame do qual era V.Ex.ia o examinador. Os métodos foram quase socráticos!!! Assim lhe depôs a árdua tarefa de reformar a única universidade do país. E V.Ex.ia fê-lo. Fê-lo e bem!
Não se limitou a reformar os estudos, como aproveitou o Ministro ter decretado a morte do Bispo-Conde (D. Miguel da Anunciação) para se travar de amizades com o novo Bispo e este não exercer censura sobre os livros que vinham para cá. E não ficou só pela Reforma injustamente chamada Pombalina: mandou construir a nova Faculdade de Ciências, fundando nele um Museu Zoológico de animais empalhados e outras curiosidades. E mandou construir o Laboratório Chymico, o primeiro da Europa. E agarrou na cerca dos frades bentos e delineou o Jardim Botânico. Foi um não parar até morrer!
E como só faltava conhecer Portugal, uma vez que o povo português ficou cansado após as Descobertas de tanto descobrir, mandou expedições ao Gerez, a Trás-os-Montes, à Serra da Estrela, ao Alentejo, e demais locais sertanejos do Portugal de então. O Bispo-Conde D. Francisco de Lemos era brasileiro e falava sem cessar do seu Brasil, das aves, da fauna, da flora, de tudo. O Senhor foi anotando o que o homem dizia e não descansou enquanto não enviou uns alunos por si formados às margens do Amazonas, para saberem o que havia, quem habitava essas margens, o que existia. Em mais de dois séculos de colonização, apenas os bandeirantes haviam trazido algo de novo. Por fim, sendo o Senhor conhecedor do que havia, fundou uma fábrica de louça em Santa Clara que inundou o mercado até 1811. Depois de várias peripécias ao fim da vida, lá morreu em Lisboa, em 1816, rabiscando uma carta para o Rei, no Brasil, dizendo que a capital estava imunda. Deixe lá que ainda hoje aquilo é uma lixeira!
O que lhe gostaria de perguntar é o que o Senhor tem para nos dizer hoje?...Após mais de dois séculos de silêncio, de esquecimento revoltante que o votaram, diga-nos por favor e em carta o que pensa disto tudo. Fico à espera da resposta.
Até lá, sou de V.Ex.ia Atento, Venerador e Admirador.

 

Eduardo Proença-Mamede